Uma amiga minha que vive numa pequena aldeia colada à fronteira com Espanha, contou-me no outro dia que quando era mais nova, ela e um grupo de adolescentes começaram a organizar umas festas lá na terra para ocuparem os tempos de ócio. Pediam à Junta de Freguesia alguma ajuda: um reboque para fazer um palco, umas lonas para improvisar coberturas, taças para as competições, etc.
Com o andar dos anos as actividades foram aumentando, concursos de pesca, corridas, semana do emigrante, corsos de Carnaval, etc. Formaram uma associação sociocultural informal que animava de quando em vez a aldeia, com crescente adesão do povo local e estendendo a sua influência às povoações vizinhas. Os anos continuaram a passar e a certa altura, já adultos e pais, começaram a sentir que a Junta de Freguesia lhes colocava cada vez mais entraves no apoio à realização das suas actividades. |
Inesperadamente, nalguns dos eventos a realizar pela referida associação, veio a Junta dizer que passaria ela própria a tratar da sua organização por se julgar mais capaz, claro está, tudo isso no superior interesse da comunidade.
A associação, aos olhos da Junta, tinha-se tornado uma perigosa ameaça face ao protagonismo que passara a ter, pois o conjunto dos seus associados conseguia mobilizar para as actividades que incrementava, um maior número de pessoas que o somatório dos eleitores da Freguesia.
Passado mais algum tempo, o grupo sociocultural, paulatinamente esvaziado dos objectivos para os quais tinha sido criado, acaba praticamente por desaparecer, assim como as actividades que, politizadas pela Junta de Freguesia, perderam a aceitação da generalidade da população. |
Um pouco há semelhança do que acabo de relatar, mas ainda mais perverso e “com final previamente anunciado”, também a Associação Viananima desenvolvia na nossa Vila um meritório trabalho de animação com crianças e adolescentes. A certa altura, esta associação por força do seu crescimento, sentiu necessidade de arranjar outras instalações mais amplas, capazes de albergar um maior número de actividades e de frequentadores. Não tendo sido possível descobrir na vila instalações adequadas, solicitaram à Câmara o empréstimo das antigas instalações da escola primária da estação de caminho-de-ferro de Viana, o que lhes foi concedido.

Com a mudança de instalações a associação não durou mais que um ano, em termos de trabalho efectivo. Claro que nenhum pai deixou os seus filhos, crianças ou jovens adolescentes, deslocarem-se para tão longe, por mais interessantes que fossem as actividades aí desenvolvidas.
Mais recentemente, temos outra situação, neste caso trata-se da Associação Seara Nova, com um longo e reconhecido trabalho na sua área e que durante anos procurou instalações para se acolher. Após várias tentativas, os seus associados, acabaram por conseguir construir uma sede (com apoio da Câmara?) num terreno generosamente cedido pela Dª Maria José Fragoso, mas cuja localização está numa ponta da vila, afastada do casario e com acessos pouco seguros.
Pelas condicionantes atrás apontadas, acaba por exigir dos seus utentes que a deslocação até à sede do grupo Seara Nova se faça quase exclusivamente de carro, pelo que esta localização marginal inviabiliza o íntimo e fácil relacionamento com a comunidade, essencial para a sobrevivência deste tipo de associação.
Dentro desta linha de raciocínio refiro ainda a construção da sede da Associação de Reformados. De todas as associações a mais nova em termos de tempo de existência, teve no entanto a capacidade de desenvolver rapidamente o processo de construção da sua sede.
Mais uma vez os decisores deste projecto empurraram o equipamento para a periferia da vila, implantando-a num bairro novo, dormitório, habitado maioritariamente por jovens activos, funcionalmente deserto durante o dia. Padece também este local de graves problemas no que respeita às acessibilidades, especialmente no que toca ao atravessamento da Estrada Nacional e à inclinação dos arruamentos que o ligam ao centro da vila. A alternativa às “ladeiras” está na utilização da referida Estrada Nacional, com os perigos daí decorrentes para a faixa etária dos utilizadores deste tipo de equipamento. Os difíceis caminhos aliados à localização periférica da sede da Associação de Reformados torna bastante penosa a acessibilidade aos seus potenciais utilizadores, muitos dos quais com dificuldade de mobilidade.
A vila dispõe no seu interior de inúmeras construções devolutas e alguns “vazios” urbanos, certamente identificados no Plano Director Municipal.
Deixo aqui algumas sugestões para dois locais, (que obviamente teriam de ser negociados com os seus legítimos proprietários), que pela sua centralidade, na minha modesta opinião, reúnem excelentes condições para a instalação de equipamentos socioculturais.
O primeiro é o terreno situado ao lado do cineteatro. Aí seria possível construir em cave, um estacionamento de apoio à zona, a biblioteca e uma zona de acesso/apoio ao palco do cineteatro.

O segundo terreno é o do campo de jogos da escola primária, conhecida como a escola das raparigas. Após escavação construir-se-ia aí, ao nível do arruamento sobranceiro à rua, um amplo parque de estacionamento, sobre o qual se implantariam dois pisos com vários espaços autónomos, para três ou quatro associações socioculturais. Na cobertura desta construção, ao nível da rua da escola, seria implantado o recreio e campo de jogos – toda a gente ganharia.
Estando em sede de revisão o Plano Director Municipal e, sendo um instrumento de planeamento “que estabelece o modelo de estrutura espacial do território municipal, constituindo uma síntese da estratégia de desenvolvimento e ordenamento local prosseguida … “, deverá também como a própria Lei determina, definir as grandes linhas estratégicas de desenvolvimento do concelho.
Se a linha seguida pelo executivo camarário for a de minorar essa revisão, o futuro PDM sancionará há semelhança do PDM vigente, somente os actos de gestão urbanística realizados, aparentemente de forma avulsa incoerente, tal como se tem passado nos últimos anos.
Será assim que se vai passar?
Inventará justificações para novas urbanizações e mais quintinhas, a pretexto de virtuais indicadores de desenvolvimento?
Finalmente, servirá todo o Concelho ou apenas meia dúzia de interesses?
Depois de nos terem levado as hortas, as pedreiras, os Vasques Fadistas a Fratejo, o Lagar a Cooperativa, enfim, de nos terem transformado em mão-de-obra a recibo verde (às vezes nem isso), passará o futuro de Viana por ser apenas mais um bairro de Évora?
Sinceramente, não queremos!
António Meneses
cegagatos@hotmail.com
Recebido em: vianadoalentejo@hotmail.com